24 de julho de 2026

Publicação no livro "Minicontos escritos por mulheres: Fora da Asa"

No dia 18 de Julho, aconteceu o lançamento online e presencial do livro "Minicontos escritos por mulheres: Fora da Asa", um projeto do selo TodAs EscreVemos realizado pela ONG Fora da Asa. A iniciativa reúne cem textos curtos de autoras contemporâneas em língua portuguesa. Meu miniconto "Contos de fada" foi selecionado para fazer parte do livro e o meu exemplar já chegou!

Fico muito contente e grata e por participar deste projeto com outros nomes talentosos da literatura feminina brasileira contemporânea!

Para adquirir o seu exemplar, entre em contato com a @foradaasa pelo Instagram. Em breve será disponibilizado também em e-book.

15 de junho de 2026

O beijo de Tchékhov


O beijo de Tchékhov

Crônica de Mayanna Velame


É um anoitecer cálido e úmido, pertinente para quem mora no Norte do Brasil.  Com as têmporas a derreter pelo intenso calor, um vento tépido me sussurra uma devida melancolia. Sobre a mesa, a mochila de poliéster me convida para abri-la. Revisto, então, o seu interior e de lá, um objeto emerge seguro entre meus dedos. De capa dura, na tonalidade de um azul - turquesa. As letras áureas e garrafais nomeiam o livro : “O beijo e outras histórias “, de Anton Tchékhov. Sempre admirei esse autor russo, isso se vale tanto pela sua perspicácia literária, quanto pela sua forma engenhosa de se entregar ao gênero do conto. Literatura sempre tem um quê de afeto para mim. Por isso, quando tomei esse livro por emprestado, eu soube que não teria apenas Tchékhov e todos seus personagens. Ler Tchékhov, significava ler, a quem sutilmente, deu-me esse livro, como se fosse parte de seu coração.

A leitura perpassa os meandros do senso comum. E enquanto o arrebol incendeia o horizonte lá fora, tenho comigo o livro de Tchékhov, aninhado contra meu peito, tal qual um filho, resguardado entre os seios de sua mãe. Na ausência de quem perdi, Tchékhov resenha frases nas lacunas construídas, pelas sombras de quem amei. Beija-me no silêncio dos lábios, na conversão mais sútil, de ser cúmplice das suas palavras.

A noite surge misteriosa e tórrida, mas o inverno russo é rigoroso e congelante como teus sentimentos, perfeição hermética, na epopeia de desnudar o amor. Entre o que pode ser verossímil ou não, sou apenas um leitor que se lê, nas estepes russas, nas caçadas dos cães, no beijo ambíguo disparado na escuridão. Em minha tutela, o livro reluz, transforma minhas pupilas em duas esmeraldas.

Sobre a escrivaninha, eu o coloco, folheio sua primeira página e a encontro puída e amarelada. No alto da folha, o nome de um sebo carimbado. Tuas digitais, assim como de outros leitores, estão aqui impregnadas. E eu me uno a elas, a cada nova leitura que me proponho a realizar. Tchékhov me lê na aresta maior de um verão, que ele jamais haveria de conhecer. Manaus nunca será São Petersburgo.

Esse livro que me deste, pode ter o peso de uma pedra fria ou a leveza febril de um sonho. Mas rente à parede do meu coração, ele é um corpo vivo — que habita o mais profundo extremo da tua ausência.

Ausência que toco, em cada página percorrida com meu olhar...

1 de junho de 2026

Além das nuvens

Além das nuvens

Crônica de Mayanna Velame


Quando eu era criança, observava o formato das nuvens que se exibiam no céu. Achava que elas eram travesseiros, almofadas onde os anjos e os santos repousavam seus corpos, após a realização de algum milagre.

Eu também pensava que os aviões com suas imponentes asas, pudessem machucá-las. Mas meu pai, logo me dizia, que as aeronaves levavam a bordo, todos os sonhos possíveis do mundo e jamais a dor.

Nesse mesmo período, eu corria para a varanda de casa, só para admirar o pôr do sol. O entardecer no horizonte, os raios áureos filtrados nas nuvens, a bola ardente, tingida em tom alaranjado, anunciava a despedida de mais um dia.

A noite chegava e com ela o cricrilar dos grilos, o coaxar dos sapos, que beiravam as poças d’água. A cantoria noturna predizia o jantar e após ele, eu retornava as minhas análises, a respeito de tudo aquilo que me rodeava. No céu, as estrelas cintilavam, eram os olhos de Deus, como assim relatavam os mais antigos.

Desse modo, antes de dormir, eu ficava espreitando pela janela, o bendito céu. Torcia, para que alguma estrela cadente, pudesse cruzar o espaço celeste e realizar todos os meus desejos.

O tempo se fez e hoje, já não sou mais criança. Quase não me sobram horas, para contemplar os desenhos feitos de nuvens. Os anjos e os santos, não conseguem descansar nessas almofadas soltas, que tanto zelei, quando mais nova. A demanda aqui na Terra é ferina, hostil demais.

No momento que me dei conta da vida, descobri também, que os aviões com suas asas, não transportam apenas os sonhos — como meu pai dizia acreditar. Eles levam os desencontros do amor, as despedidas inevitáveis. E suas asas, comandadas pelos homens, podem sim matar, não digo as nuvens, mas aqueles que as contemplam.

No assombro da noite, nem me animo mais com o cântico dos grilos e dos sapos. Ele não me soa tão alegre. É triste, como o pulsar de alguns corações. É triste, como o pôr do sol, luz distante que ilumina, mas não incendeia...

Crescer doí e muito, ser adulto é sentir os ossos romperem a pele. É reconhecer que sangrar é rotina e que feridas nem sempre saram num simples borrifar de palavras amenas. Crescer é entender que além das nuvens, existem mísseis e alguns homens camuflados de estrelas e paz.

13 de maio de 2026

A mureta

Mureta da Urca, RJ - Foto do site Viator

A mureta

Crônica de Mayanna Velame


É um domingo atípico para mim, coisa que de vez em quando, agrada-me. Desatar os nós da rotina, é repaginar a vida. Neste dia, deixo o quarto de hotel e tomo um táxi. Faz uma tarde amena, sem o calor anfitrião do Rio de Janeiro. No caminho, meus olhos contemplam com muito lirismo, a Enseada de Botafogo, a Marina da Glória, o Aterro do Flamengo ( essa cronista é Vasco da Gama) e outros lugares, que há tempos, residem apenas, nas minhas reminiscências.

Ao desembarcar do automóvel, o vento assopra seu hálito manso e frio. Diante de mim, o bairro da Urca e a nostalgia que sempre me acompanhou. Caminhando e circundando a mureta da Urca, revivo a última vez que estive aqui. Foi no ano de 1986, no florescer da minha infância, aos três anos de idade. Na minha inocência, nem imaginava as transformações políticas, econômicas e sociais, que o Brasil atravessava. Nos bares, a Copa do Mundo no México paralisava os olhos nas tevês. “ Vamos, Brasil...!”, gritamos, sofremos e perdemos, não fomos campeões. Mas eu, por outro lado, ganhava a Urca, a praia Vermelha e o mar.

Minha memória hoje, já fragmentada, não se esforça para reviver os bons momentos que aqui tive. Eles permanecem aglutinados, intactos, no mosaico das minhas afeições. Após quase tantos anos, piso em solo carioca. Foi um hiato extenso de ausência, nessa terra que abrigou e abriga tantos cronistas.

O Rio de Janeiro por si só, já é uma crônica, redigida com as curvas de seus morros e grifada com o horizonte do mar. No domingo que se despede, eu também me despeço do Rio. Mas a mureta da Urca está aqui, recebendo seus moradores, curiosos, amantes e saudosistas como eu.

Na melancolia que me abate, reservo-me no direito de avistar o pôr do sol, inibido pelas densas nuvens que o sobrepujam. Não há problema algum, em não abraçá-lo com as minhas pupilas. A Urca é bela, mesmo quando o Pão de Açúcar se oculta entre a neblina.

Perto do entardecer, sento-me sobre a mureta. As luzes da cidade crescem, queimando os veleiros ancorados. De mãos dadas com seu pai, uma criança olha pela última vez, o castelinho de areia. Neste instante, nada mais preenche minha mente. A saudade é um porto seguro, que nos lança em alto-mar. Da chegada da noite, apenas o mundo e os aviões sobrevoando a Guanabara.

Aceno para o táxi e volto para meu quarto de hotel. Sobre a cama, roupas e minha bagagem. Na tevê, o resultado da última da rodada do campeonato. Para minha tristeza, meu time perdera outra vez. A verdade é essa, não se pode ser feliz sempre, mesmo quando se adormece no Rio de Janeiro.

9 de maio de 2026

Amélia


Amélia

Crônica de Mayanna Velame

Ela tem 1,58m de altura, sua pele é branca e sedosa. Frequentemente, visita o salão de beleza, para tingir seus cabelos curtos e lisos. Suas mãos de dedos longos, sempre ou quase sempre estão com as unhas bem tratadas e pintadas. A vaidade faz parte da sua personalidade.
Amélia é assim: mulher organizada e elegante, mulher de poucas palavras, mas que sabe exigir. Talvez, eu nunca seja como ela... No entanto, uma parcela significativa de todos os seus ensinamentos, mesmo que não os perceba, estão todos aqui, dentro do meu coração.
Todos os dias, Amélia tem me mostrado que mulher de verdade, não aprende a cozinhar, no intuito de apenas satisfazer o paladar de seus filhos e marido. Mulher de verdade cozinha, arruma, lava, passa, trabalha e estuda, para se tornar autônoma, diante das circunstâncias da vida.
Com veemência, admiro sua capacidade de saber administrar com talento, o seu singelo salário de professora aposentada. Incrivelmente, organiza com precisão, os mantimentos da despensa. E como ninguém, cuida com maestria e dedicação, de cada plantinha moradora de seu jardim.
Quando eu era criança, via Amélia como uma heroína imbatível. Hoje, estou com a metade da sua idade, e, para mim, ela continua sendo a mesma — só que agora, meu olhar é mais sensível, reconhecedor de tudo que ela fez e ainda faz por mim.
Espero que Amélia continue sempre comigo, reprovando meus penteados e escovando meus cabelos durante as manhãs. Já suportamos tantos acontecimentos... E também já gozamos de momentos ímpares.
Mamãe tem 1,58m de altura. É pequena no tamanho, mas grande na sabedoria. Fonte de amor e amizade. Respeito e gratidão. Com a brevidade da vida, só me resta redigir essa crônica, com sentimentos verdadeiros e maviosos. Não sou a melhor filha do mundo e, tampouco, algum dia conseguirei ser; sei que sou chata, crítica, desorganizada, rebelde e displicente. Mas são essas minhas imperfeições, que fazem Amélia me amar. Sim, ela me ama, simplesmente pelo milagroso fato de ser minha mãe.