Além das nuvens
Crônica de Mayanna Velame
Quando eu era criança, observava o formato das nuvens que se exibiam no céu. Achava que elas eram travesseiros, almofadas onde os anjos e os santos repousavam seus corpos, após a realização de algum milagre.
Eu também pensava que os aviões com suas imponentes asas, pudessem machucá-las. Mas meu pai, logo me dizia, que as aeronaves levavam a bordo, todos os sonhos possíveis do mundo e jamais a dor.
Nesse mesmo período, eu corria para a varanda de casa, só para admirar o pôr do sol. O entardecer no horizonte, os raios áureos filtrados nas nuvens, a bola ardente, tingida em tom alaranjado, anunciava a despedida de mais um dia.
A noite chegava e com ela o cricrilar dos grilos, o coaxar dos sapos, que beiravam as poças d’água. A cantoria noturna predizia o jantar e após ele, eu retornava as minhas análises, a respeito de tudo aquilo que me rodeava. No céu, as estrelas cintilavam, eram os olhos de Deus, como assim relatavam os mais antigos.
Desse modo, antes de dormir, eu ficava espreitando pela janela, o bendito céu. Torcia, para que alguma estrela cadente, pudesse cruzar o espaço celeste e realizar todos os meus desejos.
O tempo se fez e hoje, já não sou mais criança. Quase não me sobram horas, para contemplar os desenhos feitos de nuvens. Os anjos e os santos, não conseguem descansar nessas almofadas soltas, que tanto zelei, quando mais nova. A demanda aqui na Terra é ferina, hostil demais.
No momento que me dei conta da vida, descobri também, que os aviões com suas asas, não transportam apenas os sonhos — como meu pai dizia acreditar. Eles levam os desencontros do amor, as despedidas inevitáveis. E suas asas, comandadas pelos homens, podem sim matar, não digo as nuvens, mas aqueles que as contemplam.
No assombro da noite, nem me animo mais com o cântico dos grilos e dos sapos. Ele não me soa tão alegre. É triste, como o pulsar de alguns corações. É triste, como o pôr do sol, luz distante que ilumina, mas não incendeia...
Crescer doí e muito, ser adulto é sentir os ossos romperem a pele. É reconhecer que sangrar é rotina e que feridas nem sempre saram num simples borrifar de palavras amenas. Crescer é entender que além das nuvens, existem mísseis e alguns homens camuflados de estrelas e paz.





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