16 de setembro de 2026

Amarelo

Amarelo

Mayanna Velame

Sintonizei na estação de uma rádio qualquer. Sentada no banco carona, observei atentamente os pingos de chuva que umedeciam o asfalto. De repente, deixei de contemplar os chuviscos e passei a ouvir as notícias nada animadoras do dia. Entre elas, uma me chamou atenção: no mundo, por ano, 1 milhão de pessoas dão fim em suas próprias vidas, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, esse número é de 12 mil pessoas. Diante desses relatos, pensei na famosa obra Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), do escritor alemão Goethe.

O romance tem como protagonista Werther, jovem apaixonado por Charlotte, moça já comprometida com Albert. Através de cartas enviadas para seu amigo Wilhelm, Werther expressa sentimentos, diante de um amor impossível de ser vivido e realizado.

Possuído pela paixão e pela frustração latente. Werther despede-se de sua vida, suicidando-se com um tiro de pistola na cabeça. O livro é tenso, tétrico e dramático. E difícil de não sentir o sofrimento de seu personagem principal.

No período em que foi publicada, a obra-prima de Goethe ocasionou uma série de suicídios na Europa. Estudiosos no assunto, dizem que grupos de jovens na época, vestiam coletes amarelos com detalhes azuis, fazendo referência ao traje utilizado, nos últimos momentos de vida de Werther.

A morte como escapismo é uma das temáticas deste livro, primor da literatura romântica na Alemanha. Apesar de estarmos em pleno século XXI, a narrativa de Goethe continua sendo vigente.

Da ficção literária para a vida real, o suicídio faz parte da campanha Setembro Amarelo, cujo objetivo é de conscientizar a sociedade, em relação a este tema de extrema importância. Ouvir um amigo, um aluno, um parente, ou qualquer pessoa que esteja vivenciando essa dor na alma, merece nossa devida atenção. Um desabafo, um abraço acolhedor, um aperto de mão, um diálogo franco e verdadeiro podem salvar vidas cansadas e desanimadas.

Esperamos que o laço de cor amarela seja nosso sinal de alerta, para olharmos quem está ao nosso lado, com mais sensibilidade, empatia e coração. Afinal, há muitos Werthers espalhados pelo mundo, inclusive, perto de nós.

13 de agosto de 2026

Menção Honrosa no 2° Prêmio Literário Contos em Pílula (2026)

Menção Honrosa no 2° Prêmio Literário Contos em Pílula (2026), Mayanna Velame

No final de Julho, recebi uma menção honrosa pela minha participação no "2° Prêmio Literário Contos em Pílula (2026)" com o meu conto "Tritona Cordis Remedium". Ele foi um dos contos finalistas do concurso promovido pelo "Jornal Escritor e Leitor" e recebeu a seguinte crítica dos jurados:

"O seu conto se destaca pela criatividade da proposta, ao unir ficção científica, fantasia e drama romântico em uma narrativa original. A construção da relação entre Vargas e o professor Afrânio é convincente e serve como um bom contraponto entre a racionalidade científica e a complexidade dos sentimentos humanos. Também merece destaque o uso do fictício elixir Tritona Cordis Remedium como elemento central da história, além da boa condução da jornada do protagonista em busca da fórmula, passando por diferentes lugares do mundo. O desfecho surpreendente, com a inesperada transformação física de Vargas e a cena final envolvendo Angélica, cria um efeito de estranhamento que permanece com o leitor após a conclusão da leitura."

Fiquei muito contente com a premiação e agradeço à organização pela oportunidade!

24 de julho de 2026

Publicação no livro "Minicontos escritos por mulheres: Fora da Asa"

No dia 18 de Julho, aconteceu o lançamento online e presencial do livro "Minicontos escritos por mulheres: Fora da Asa", um projeto do selo TodAs EscreVemos realizado pela ONG Fora da Asa. A iniciativa reúne cem textos curtos de autoras contemporâneas em língua portuguesa. Meu miniconto "Contos de fada" foi selecionado para fazer parte do livro e o meu exemplar já chegou!

Fico muito contente e grata e por participar deste projeto com outros nomes talentosos da literatura feminina brasileira contemporânea!

Para adquirir o seu exemplar, entre em contato com a @foradaasa pelo Instagram. Em breve será disponibilizado também em e-book.

15 de junho de 2026

O beijo de Tchékhov


O beijo de Tchékhov

Crônica de Mayanna Velame


É um anoitecer cálido e úmido, pertinente para quem mora no Norte do Brasil.  Com as têmporas a derreter pelo intenso calor, um vento tépido me sussurra uma devida melancolia. Sobre a mesa, a mochila de poliéster me convida para abri-la. Revisto, então, o seu interior e de lá, um objeto emerge seguro entre meus dedos. De capa dura, na tonalidade de um azul - turquesa. As letras áureas e garrafais nomeiam o livro : “O beijo e outras histórias “, de Anton Tchékhov. Sempre admirei esse autor russo, isso se vale tanto pela sua perspicácia literária, quanto pela sua forma engenhosa de se entregar ao gênero do conto. Literatura sempre tem um quê de afeto para mim. Por isso, quando tomei esse livro por emprestado, eu soube que não teria apenas Tchékhov e todos seus personagens. Ler Tchékhov, significava ler, a quem sutilmente, deu-me esse livro, como se fosse parte de seu coração.

A leitura perpassa os meandros do senso comum. E enquanto o arrebol incendeia o horizonte lá fora, tenho comigo o livro de Tchékhov, aninhado contra meu peito, tal qual um filho, resguardado entre os seios de sua mãe. Na ausência de quem perdi, Tchékhov resenha frases nas lacunas construídas, pelas sombras de quem amei. Beija-me no silêncio dos lábios, na conversão mais sútil, de ser cúmplice das suas palavras.

A noite surge misteriosa e tórrida, mas o inverno russo é rigoroso e congelante como teus sentimentos, perfeição hermética, na epopeia de desnudar o amor. Entre o que pode ser verossímil ou não, sou apenas um leitor que se lê, nas estepes russas, nas caçadas dos cães, no beijo ambíguo disparado na escuridão. Em minha tutela, o livro reluz, transforma minhas pupilas em duas esmeraldas.

Sobre a escrivaninha, eu o coloco, folheio sua primeira página e a encontro puída e amarelada. No alto da folha, o nome de um sebo carimbado. Tuas digitais, assim como de outros leitores, estão aqui impregnadas. E eu me uno a elas, a cada nova leitura que me proponho a realizar. Tchékhov me lê na aresta maior de um verão, que ele jamais haveria de conhecer. Manaus nunca será São Petersburgo.

Esse livro que me deste, pode ter o peso de uma pedra fria ou a leveza febril de um sonho. Mas rente à parede do meu coração, ele é um corpo vivo — que habita o mais profundo extremo da tua ausência.

Ausência que toco, em cada página percorrida com meu olhar...

1 de junho de 2026

Além das nuvens

Além das nuvens

Crônica de Mayanna Velame


Quando eu era criança, observava o formato das nuvens que se exibiam no céu. Achava que elas eram travesseiros, almofadas onde os anjos e os santos repousavam seus corpos, após a realização de algum milagre.

Eu também pensava que os aviões com suas imponentes asas, pudessem machucá-las. Mas meu pai, logo me dizia, que as aeronaves levavam a bordo, todos os sonhos possíveis do mundo e jamais a dor.

Nesse mesmo período, eu corria para a varanda de casa, só para admirar o pôr do sol. O entardecer no horizonte, os raios áureos filtrados nas nuvens, a bola ardente, tingida em tom alaranjado, anunciava a despedida de mais um dia.

A noite chegava e com ela o cricrilar dos grilos, o coaxar dos sapos, que beiravam as poças d’água. A cantoria noturna predizia o jantar e após ele, eu retornava as minhas análises, a respeito de tudo aquilo que me rodeava. No céu, as estrelas cintilavam, eram os olhos de Deus, como assim relatavam os mais antigos.

Desse modo, antes de dormir, eu ficava espreitando pela janela, o bendito céu. Torcia, para que alguma estrela cadente, pudesse cruzar o espaço celeste e realizar todos os meus desejos.

O tempo se fez e hoje, já não sou mais criança. Quase não me sobram horas, para contemplar os desenhos feitos de nuvens. Os anjos e os santos, não conseguem descansar nessas almofadas soltas, que tanto zelei, quando mais nova. A demanda aqui na Terra é ferina, hostil demais.

No momento que me dei conta da vida, descobri também, que os aviões com suas asas, não transportam apenas os sonhos — como meu pai dizia acreditar. Eles levam os desencontros do amor, as despedidas inevitáveis. E suas asas, comandadas pelos homens, podem sim matar, não digo as nuvens, mas aqueles que as contemplam.

No assombro da noite, nem me animo mais com o cântico dos grilos e dos sapos. Ele não me soa tão alegre. É triste, como o pulsar de alguns corações. É triste, como o pôr do sol, luz distante que ilumina, mas não incendeia...

Crescer doí e muito, ser adulto é sentir os ossos romperem a pele. É reconhecer que sangrar é rotina e que feridas nem sempre saram num simples borrifar de palavras amenas. Crescer é entender que além das nuvens, existem mísseis e alguns homens camuflados de estrelas e paz.