1 de junho de 2026

Além das nuvens

Além das nuvens

Crônica de Mayanna Velame


Quando eu era criança, observava o formato das nuvens que se exibiam no céu. Achava que elas eram travesseiros, almofadas onde os anjos e os santos repousavam seus corpos, após a realização de algum milagre.

Eu também pensava que os aviões com suas imponentes asas, pudessem machucá-las. Mas meu pai, logo me dizia, que as aeronaves levavam a bordo, todos os sonhos possíveis do mundo e jamais a dor.

Nesse mesmo período, eu corria para a varanda de casa, só para admirar o pôr do sol. O entardecer no horizonte, os raios áureos filtrados nas nuvens, a bola ardente, tingida em tom alaranjado, anunciava a despedida de mais um dia.

A noite chegava e com ela o cricrilar dos grilos, o coaxar dos sapos, que beiravam as poças d’água. A cantoria noturna predizia o jantar e após ele, eu retornava as minhas análises, a respeito de tudo aquilo que me rodeava. No céu, as estrelas cintilavam, eram os olhos de Deus, como assim relatavam os mais antigos.

Desse modo, antes de dormir, eu ficava espreitando pela janela, o bendito céu. Torcia, para que alguma estrela cadente, pudesse cruzar o espaço celeste e realizar todos os meus desejos.

O tempo se fez e hoje, já não sou mais criança. Quase não me sobram horas, para contemplar os desenhos feitos de nuvens. Os anjos e os santos, não conseguem descansar nessas almofadas soltas, que tanto zelei, quando mais nova. A demanda aqui na Terra é ferina, hostil demais.

No momento que me dei conta da vida, descobri também, que os aviões com suas asas, não transportam apenas os sonhos — como meu pai dizia acreditar. Eles levam os desencontros do amor, as despedidas inevitáveis. E suas asas, comandadas pelos homens, podem sim matar, não digo as nuvens, mas aqueles que as contemplam.

No assombro da noite, nem me animo mais com o cântico dos grilos e dos sapos. Ele não me soa tão alegre. É triste, como o pulsar de alguns corações. É triste, como o pôr do sol, luz distante que ilumina, mas não incendeia...

Crescer doí e muito, ser adulto é sentir os ossos romperem a pele. É reconhecer que sangrar é rotina e que feridas nem sempre saram num simples borrifar de palavras amenas. Crescer é entender que além das nuvens, existem mísseis e alguns homens camuflados de estrelas e paz.

13 de maio de 2026

A mureta

Mureta da Urca, RJ - Foto do site Viator

A mureta

Crônica de Mayanna Velame


É um domingo atípico para mim, coisa que de vez em quando, agrada-me. Desatar os nós da rotina, é repaginar a vida. Neste dia, deixo o quarto de hotel e tomo um táxi. Faz uma tarde amena, sem o calor anfitrião do Rio de Janeiro. No caminho, meus olhos contemplam com muito lirismo, a Enseada de Botafogo, a Marina da Glória, o Aterro do Flamengo ( essa cronista é Vasco da Gama) e outros lugares, que há tempos, residem apenas, nas minhas reminiscências.

Ao desembarcar do automóvel, o vento assopra seu hálito manso e frio. Diante de mim, o bairro da Urca e a nostalgia que sempre me acompanhou. Caminhando e circundando a mureta da Urca, revivo a última vez que estive aqui. Foi no ano de 1986, no florescer da minha infância, aos três anos de idade. Na minha inocência, nem imaginava as transformações políticas, econômicas e sociais, que o Brasil atravessava. Nos bares, a Copa do Mundo no México paralisava os olhos nas tevês. “ Vamos, Brasil...!”, gritamos, sofremos e perdemos, não fomos campeões. Mas eu, por outro lado, ganhava a Urca, a praia Vermelha e o mar.

Minha memória hoje, já fragmentada, não se esforça para reviver os bons momentos que aqui tive. Eles permanecem aglutinados, intactos, no mosaico das minhas afeições. Após quase tantos anos, piso em solo carioca. Foi um hiato extenso de ausência, nessa terra que abrigou e abriga tantos cronistas.

O Rio de Janeiro por si só, já é uma crônica, redigida com as curvas de seus morros e grifada com o horizonte do mar. No domingo que se despede, eu também me despeço do Rio. Mas a mureta da Urca está aqui, recebendo seus moradores, curiosos, amantes e saudosistas como eu.

Na melancolia que me abate, reservo-me no direito de avistar o pôr do sol, inibido pelas densas nuvens que o sobrepujam. Não há problema algum, em não abraçá-lo com as minhas pupilas. A Urca é bela, mesmo quando o Pão de Açúcar se oculta entre a neblina.

Perto do entardecer, sento-me sobre a mureta. As luzes da cidade crescem, queimando os veleiros ancorados. De mãos dadas com seu pai, uma criança olha pela última vez, o castelinho de areia. Neste instante, nada mais preenche minha mente. A saudade é um porto seguro, que nos lança em alto-mar. Da chegada da noite, apenas o mundo e os aviões sobrevoando a Guanabara.

Aceno para o táxi e volto para meu quarto de hotel. Sobre a cama, roupas e minha bagagem. Na tevê, o resultado da última da rodada do campeonato. Para minha tristeza, meu time perdera outra vez. A verdade é essa, não se pode ser feliz sempre, mesmo quando se adormece no Rio de Janeiro.

9 de maio de 2026

Amélia


Amélia

Crônica de Mayanna Velame

Ela tem 1,58m de altura, sua pele é branca e sedosa. Frequentemente, visita o salão de beleza, para tingir seus cabelos curtos e lisos. Suas mãos de dedos longos, sempre ou quase sempre estão com as unhas bem tratadas e pintadas. A vaidade faz parte da sua personalidade.
Amélia é assim: mulher organizada e elegante, mulher de poucas palavras, mas que sabe exigir. Talvez, eu nunca seja como ela... No entanto, uma parcela significativa de todos os seus ensinamentos, mesmo que não os perceba, estão todos aqui, dentro do meu coração.
Todos os dias, Amélia tem me mostrado que mulher de verdade, não aprende a cozinhar, no intuito de apenas satisfazer o paladar de seus filhos e marido. Mulher de verdade cozinha, arruma, lava, passa, trabalha e estuda, para se tornar autônoma, diante das circunstâncias da vida.
Com veemência, admiro sua capacidade de saber administrar com talento, o seu singelo salário de professora aposentada. Incrivelmente, organiza com precisão, os mantimentos da despensa. E como ninguém, cuida com maestria e dedicação, de cada plantinha moradora de seu jardim.
Quando eu era criança, via Amélia como uma heroína imbatível. Hoje, estou com a metade da sua idade, e, para mim, ela continua sendo a mesma — só que agora, meu olhar é mais sensível, reconhecedor de tudo que ela fez e ainda faz por mim.
Espero que Amélia continue sempre comigo, reprovando meus penteados e escovando meus cabelos durante as manhãs. Já suportamos tantos acontecimentos... E também já gozamos de momentos ímpares.
Mamãe tem 1,58m de altura. É pequena no tamanho, mas grande na sabedoria. Fonte de amor e amizade. Respeito e gratidão. Com a brevidade da vida, só me resta redigir essa crônica, com sentimentos verdadeiros e maviosos. Não sou a melhor filha do mundo e, tampouco, algum dia conseguirei ser; sei que sou chata, crítica, desorganizada, rebelde e displicente. Mas são essas minhas imperfeições, que fazem Amélia me amar. Sim, ela me ama, simplesmente pelo milagroso fato de ser minha mãe.

29 de abril de 2026

A mão do poeta


A mão do poeta

Crônica de Mayanna Velame

Ela tinha uns treze anos de idade e o seu corpo era rechonchudo, mal cabia ele dentro do uniforme escolar. A face toda estrelada de espinhas, cintilava sua timidez e insegurança diante do mundo.

Na escola, seus amigos eram poucos, mas apesar de tudo, gostava de estar lá. Pois podia muito bem encontrar seus livros e com eles, a poesia. Durante as aulas de Língua Portuguesa, ela se encantava com Drummond, Gullar, Meireles e um poeta da sua região, chamado de Thiago de Mello. Leu então, Os Estatutos do Homem. E foi assim, que percebeu, o quanto a poesia podia converter as manhãs cinzentas de terças-feiras, em dias ensolarados de domingos.

A professora instigava os alunos, incentivava na produção de poemas, deixava à luz, a criação poética. Com isso veio os saraus, os festivais literários do colégio, conheceu Thiago de Mello, durante um evento e ele apertou firmemente sua mão. A menina rechonchuda ganhava prêmios, apresentava seus poemas e entre eles, destacou-se um, intitulado: O fim de tudo.

Não sabia ela, que ali estava o início de tudo, descobriu o quanto a literatura era saber dialogar em silêncio. E ela aos poucos foi dialogando. De verso em verso, a vida reluzia novas cores. O pôr do sol não era apenas mais um fenômeno natural, era uma pupila em brasa, esquecida por algum gigante no horizonte. A chuva e seu chiado sobre as telhas das casas, revelava as lágrimas dos anjos e o solo úmido demonstrava a transpiração da cidade, fincada na floresta.

A poesia agora era o seu mundo e ele ganhava uma nova dimensão, um novo significado. Uma nova leitura se rabiscava nos devaneios e nas utopias mais sublimes. Viver apenas não bastava, era preciso transformar os sentimentos em linguagem e é por causa dela, que os seres humanos conseguem se unir. É na linguagem que nos reconhecemos. E poesia é linguagem. É demonstração maior do sentir, na projeção daquilo que o abstrato concretiza dentro de cada um...

Ela tem um pouco mais de quarenta anos, o corpo continua rechonchudo. O uniforme escolar ficou no passado, como a lembrança de um tempo bom. A face hoje é lisa, mas com algumas cicatrizes deixadas pelas espinhas da adolescência. A timidez ainda impera, embora, não tão eficiente como outrora. Thiago de Mello que lhe ofereceu uma das mãos, faz poesia em outra morada..

Morada em que residem os sonhos de quem quer ser poeta...

22 de dezembro de 2025

Participação em Sarau Natalino dos Professores

O meu conto "Estrela de Belém", publicado na revista digital "É Natal na CASA!", foi lido por alguns professores da Escola EEFM Dr. Gentil Barreira, de Fortaleza/CE, que me fizeram o convite especial para participar de um sarau literário virtual natalino junto a eles. Neste encontro, pude lhes apresentar os meus livros e compartilhar um pouco sobre minha escrita. Agradeço novamente por este belo convite e oportunidade!