29 de abril de 2026

A mão do poeta


A mão do poeta

Crônica de Mayanna Velame

Ela tinha uns treze anos de idade e o seu corpo era rechonchudo, mal cabia ele dentro do uniforme escolar. A face toda estrelada de espinhas, cintilava sua timidez e insegurança diante do mundo.

Na escola, seus amigos eram poucos, mas apesar de tudo, gostava de estar lá. Pois podia muito bem encontrar seus livros e com eles, a poesia. Durante as aulas de Língua Portuguesa, ela se encantava com Drummond, Gullar, Meireles e um poeta da sua região, chamado de Thiago de Mello. Leu então, Os Estatutos do Homem. E foi assim, que percebeu, o quanto a poesia podia converter as manhãs cinzentas de terças-feiras, em dias ensolarados de domingos.

A professora instigava os alunos, incentivava na produção de poemas, deixava à luz, a criação poética. Com isso veio os saraus, os festivais literários do colégio, conheceu Thiago de Mello, durante um evento e ele apertou firmemente sua mão. A menina rechonchuda ganhava prêmios, apresentava seus poemas e entre eles, destacou-se um, intitulado: O fim de tudo.

Não sabia ela, que ali estava o início de tudo, descobriu o quanto a literatura era saber dialogar em silêncio. E ela aos poucos foi dialogando. De verso em verso, a vida reluzia novas cores. O pôr do sol não era apenas mais um fenômeno natural, era uma pupila em brasa, esquecida por algum gigante no horizonte. A chuva e seu chiado sobre as telhas das casas, revelava as lágrimas dos anjos e o solo úmido demonstrava a transpiração da cidade, fincada na floresta.

A poesia agora era o seu mundo e ele ganhava uma nova dimensão, um novo significado. Uma nova leitura se rabiscava nos devaneios e nas utopias mais sublimes. Viver apenas não bastava, era preciso transformar os sentimentos em linguagem e é por causa dela, que os seres humanos conseguem se unir. É na linguagem que nos reconhecemos. E poesia é linguagem. É demonstração maior do sentir, na projeção daquilo que o abstrato concretiza dentro de cada um...

Ela tem um pouco mais de quarenta anos, o corpo continua rechonchudo. O uniforme escolar ficou no passado, como a lembrança de um tempo bom. A face hoje é lisa, mas com algumas cicatrizes deixadas pelas espinhas da adolescência. A timidez ainda impera, embora, não tão eficiente como outrora. Thiago de Mello que lhe ofereceu uma das mãos, faz poesia em outra morada..

Morada em que residem os sonhos de quem quer ser poeta...

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